E aí, cara, posso lhe fazer uma pergunta? Você conhece aquela música: é a cabeça que manda no corpo ou é o corpo que manda na cabeça? Que pergunta, hein? Você sabe a resposta. Que é isso aí em sua mão? Gravetos? Ah, qual é? Pensei que fosse alguma coisa boa. Brasília é assim mesmo, à noite, ninguém. Ninguém anda. Ninguém nada. Você também é da bolha, mora dentro das caixas? Eu fico nervoso, falo demais, moro com meus pais, ainda, sou manco, você tá vendo? Não, aqui nesse escuro não tem eixo nem catedral, é só as pessoas que nada que nem você e eu. O cara de pau mandou cortar aquelas árvores ali, e aquelas outras também, tudo serrado. Tudo errado, tudo certo. Tudo do jeito que tinha que ser. Eu vou seguindo aqui esse meu caminho de mato. Mato? Mato, sim, esse caminho de cimento é meu caminho de mato, nunca sei onde vai dar, nunca pergunto, nunca encontro ninguém. A noite está quente, mas o céu está negro e estrelado. Não diga que você vai na locadora, vai chapar de frente pro céu sem estrelas. Ah, que é isso?! Por baixo desse cimento e desse concreto correm os rios, e dentro dos rios corre muita sujeira. Ou você acha que embaixo desse céu azul e dessa esplanada de gabinetes não tem coisa nenhuma? Tem rio, sim. Mais de um, mais de uns. Tem gente que morreu também e nunca foi enterrada. Não é só aqui, mas em todo lugar. As almas vagam pelos caminhos do mato.
Texto completo: PDF




