Em pé, na entrada de sua sala, Afrânio conversava com um de nossos colegas de trabalho. Foi a primeira vez que notei sua presença: a voz grave extravasava os limites da boca como se vencesse, no último momento, a atração irresistível de uma força que a puxava de volta a seu centro gravitacional. - Les mots sont partout1 – ele dizia, em tom irônico, abrindo os braços e mostrando as palmas das mãos. – Les mots sont partout. O colega, cujas feições já não lembro, retraíra-se um pouco, encolhido diante do espetáculo. O gigante, geralmente calado e discreto, arqueava levemente os ombros largos e pesados, enquanto expunha sua concepção do universo. Nesses momentos de reflexão em voz alta, a expressão do rosto cansado se transformava e adquiria uma jovialidade e uma intensidade surpreendentes. Não lembro de muitos detalhes daquele primeiro contato. Se fecho os olhos, me vem à mente uma sala repleta de papéis, um pouco mais confusa do que a
maioria das salas vizinhas. Sobre a mesa, pilhas de trabalhos por fazer, livros de consulta, anuários, recortes de jornais. Ao passar, pressenti o cheiro da poeira acumulada ao longo dos anos. Era a primeira contradição do gigante Afrânio: poeira e juventude, passado e futuro mesclavam-se numa personalidade complexa, cuja inquietude estava quase sempre encoberta pelos trajes puídos e pelas lentes escuras dos óculos antiquados.
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